Luiz Weis
Nada como mais um escândalo de corrupção - com os suspeitos de sempre e os métodos de costume - para dar força nova à certeza arraigada na cabeça de muita gente de que nada muda nem tem perigo de mudar para melhor neste Brasil. Mas, erguendo um pouco a vista e apurando a escuta, dá para notar que, correndo por fora do desencanto unânime com a impunidade das mafiosas excelências municipais, estaduais e federais que nenhuma navalha parece capaz de cortar, algo diferente acontece, amadurece e vai abrindo caminho pela esfera pública.
Percorrem a sociedade saudáveis sinais de atenção a problemas que durante longo tempo ficaram encolhidos diante da agenda dominadora das condições materiais de existência, a que se acrescentou, e não é de hoje, a barbárie cotidiana da violência, com as inevitáveis seqüelas do embrutecimento coletivo e do assombroso dilaceramento da coesão social. Claro que as servidões do ganha-pão e as agonias da insegurança continuam no lugar que lhes é natural na ordem das coisas. Mas outras aragens renovam o ambiente. O governo e a mídia, cada qual na sua, têm parte com isso.
Duas semanas atrás, ao desancar, com pencas de razão, o escasso trânsito de idéias na televisão aberta brasileira, o presidente Lula mencionou uma série de assuntos que espera ver discutidos no horário nobre da futura rede pública - a qual, segundo ele, já 'pegou no breu'. Entre eles, o do aborto e das pesquisas com células-tronco. Mas, principalmente em relação ao primeiro, o debate também já pegou no breu. Porque a imprensa manteve no ar a peteca levantada primeiro pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e depois tocada ainda mais alto pelo próprio Lula.
No embalo do lance, deu-se o mesmo quando ele saiu em defesa, de aplaudir em cena aberta, do caráter secular do Estado nacional, contra o que ficou claramente caracterizado como uma tentativa de ingerência religiosa na política brasileira de educação pública. E eis que esses temas da vida real - interrupção voluntária da gravidez; pesquisas científicas com embriões humanos, asseguradas na Lei de Biossegurança e contestadas na Justiça; crenças e valores pessoais versus critérios de ação estatal - entraram para a ordem do dia, aliviando do ramerrame da política velha as páginas de opinião dos jornais. Ponto para o governo, ponto para o País.
Por isso, mereceria mais do que um P. S. num artigo crítico a Lula, como se leu há pouco nesta página, o elogio a suas manifestações sobre o aborto. Recordar é viver. Desde 1940, quando o Código Penal considerou criminosa a prática, salvo em caso de estupro ou de risco de vida para a gestante, o Brasil teve 18 presidentes, contados os reeleitos e descontados os interinos, além dos 'três patetas' da Junta de 1969. Nenhum deles, exceto Lula, deu a cara para a Igreja bater, separando o que acha do aborto do 'tratamento adequado' que o Estado deve dar a quem o faz, por ser uma clamorosa questão de saúde pública.
Foi um ato de coragem, mesmo tendo em conta o fator 'Nixon na China'. Só um direitista como o então presidente americano, dizia-se, poderia visitar e reconhecer a China de Mao, o inimigo número 1 dos Estados Unidos, em 1972. E só um insuspeito católico como Lula poderia sustentar que a mulher que aborta deve ir para o hospital, não para a cadeia. De todo modo, valem os efeitos: no último domingo, O Globo deu a manchete Abortos ilegais internaram no SUS 1,2 milhão em 5 anos e informou no principal de seus 12 textos a respeito que o aborto de alto risco 'é a terceira causa de morte materna no país'.
O mesmo fair play que atestará o papel do governo na promoção do debate sobre o aborto e outros assuntos de que os políticos querem distância será um pré-requisito para julgar o segundo mandato de Lula pelos seus méritos, nem pelo valor inflacionado que lhe atribuem os lulistas deslumbrados, nem pelo valor depreciado dos que se negam a admitir a mera hipótese de que a sua gestão pode, afinal, dar certo. Pois se cabe criticar a operação marqueteira do PAC, por exemplo, cabe igualmente aplaudir a atuação de ministros como o já citado Temporão, da Saúde, o da Educação, Fernando Haddad, e o de Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende - os três em áreas cruciais.
A verdade é que alguma coisa que não é fácil definir em meia dúzia de palavras está acontecendo na intimidade do governo e na seara da sociedade. Há menos crispação e mais abertura de horizontes. Se é fato que as oposições 'parecem lobotomizadas', como disse a este jornal o professor Daniel Aarão Reis, que leciona História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense, também é fato, ou assim parece, que se está robustecendo o consenso em torno do que ele considera o 'reformismo moderado' de Lula. 'As classes médias não estão sem rumo', observa Aarão Reis. 'Querem reformar o País devagar e sempre.'
Nisso decerto se fundamenta o campo de convergência que, ao se consolidar, produz esse astral positivo que dá para sentir entre os brasileiros mais lúcidos, qualquer que tenha sido o seu voto nos dois turnos de outubro passado. Impossível subestimar, naturalmente, a contribuição, para tanto, dos números quase todos excepcionais da economia, apesar dos juros altos e do crescimento medíocre. Mas o essencial é que o alargamento do território do debate, na direção da chamada 'agenda pós-materialista', não poderia prescindir daquele acordo tácito do qual só não participam, como sempre, os extremos do espectro ideológico.
Em meados de abril, já convidado para ministro-chefe da Secretaria de Comunicação do governo, o jornalista Franklin Martins falou numa entrevista da agenda comum 'que construímos quase sem perceber'. A maioria absoluta dos brasileiros quer democracia, moeda, responsabilidade fiscal, crescimento e distribuição de renda. A destilação desse pacto faz agora as coisas acontecerem.
Luiz Weis é jornalista