No último dia 22/05/2008 tive a oportunidade de viajar de Brasília para Manaus no mesmo vôo que o então senador Jefferson Péres (PDT). Ele retornava para sua cidade de origem como sempre o faz às quintas-feiras. Eu me dirigia ao II Seminário Internacional de Ciências do Ambiente da Amazônia. Após me apresentar, e dizer de minha admiração pela sua atuação política em tempos de tanta pilantragem, ele me contou a seguinte história que vou tentar resumir neste espaço: “No dia 27 de outubro de 2007 eu estava no Rio de Janeiro para participar de um seminário sobre política e combate à corrupção. Quando saí do hotel para ir ao evento, resolvi passar num caixa eletrônico para sacar...Entrei na fila e um rapaz que estava à minha frente me olhou e me encarou por alguns segundos. Depois de ele sacar o dinheiro, veio em minha direção e perguntou se eu era o senador Jefferson Péres. Eu confirmei. Então ele me mostrou uma cédula de 20 reais, que acabara de sacar. Estava escrito: Político é tudo ladrão. Ele então falou: “É isso que o povo brasileiro pensa de vocês”. Eu respondi: “Nem todos são corruptos”. Ele retrucou: “Eu sei que o senhor não é assim, mas a maioria é”.
O senador Jefferson Péres, com sua voz calma e seu jeito manso de falar, confidenciou-me que aquilo o deixou muito triste por vários dias. Para ele foi mais uma confirmação de algo que vinha constatando já há muito tempo: as pessoas, infelizmente, não acreditam mais que os políticos possam fazer alguma coisa de bom para mudar este Brasil. Que a política acabou se transformando em algo para “espertos” e interesseiros. Tal sentimento é mais do que compreensível, tendo em vista o que temos assistido no cenário político nacional. Continuamos a conversa e passamos a falar sobre a questão amazônica. No dia anterior ele tinha feito um pronunciamento no plenário do Senado no qual manifestou, mais uma vez, sua preocupação com o que está acontecendo na região. Segundo ele, e no que concordo plenamente, não devíamos nos preocupar tanto com a suposta internacionalização da Amazônia, mas sim, a nossa atenção deveria voltar-se, também, para a cobiça e a ganância nacional sobre a Amazônia. Para a ação de madeireiros, de pecuaristas, de grandes agricultores e de tantos outros que podem, segundo ele, provocar um verdadeiro holocausto ecológico naquela região.
Qual não foi minha surpresa quando, na manhã do dia seguinte, cerca de sete horas, ligo a televisão no hotel e, numa chamada extraordinária, um canal local dá em primeira-mão a notícia da morte, devido a um infarto fulminante, do senador Jefferson Péres. Fiquei pensando que a política brasileira vai, dia-a-dia, perdendo suas parcas reservas éticas. Não estaríamos frente a um outro holocausto, no caso ético-político?