Acostumado a monitorar os passos da política brasileira, o diretor-executivo da Ong Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, está preocupado com a volta dos debates sobre a reforma política. Recorrente, a proposta do financiamento público de campanha é encarada como mais um equívoco porque, segundo ele, não resolveria o problema do caixa 2. Convencido de que a proposta é apenas um subterfúgio do governo para contornar velhos problemas, como o mensalão, Abramo se prepara para erguer uma nova bandeira: a luta contra o uso do dinheiro do eleitor para custear as eleições. Ontem, a Agência RBS conversou com ele por telefone. A seguir, os principais trechos.

Diário Catarinense - O financiamento público de campanha é uma boa iniciativa?
Claudio Weber Abramo - É um equívoco. A motivação para o financiamento público exclusivo de campanha é equivocada. Proibindo o financiamento legal, os partidos argumentam que vão reduzir o uso do caixa 2. Isso não faz nenhum sentido.
DC - Então há outros interesses por trás da proposta de financiamento público?
Abramo - Com certeza. Isso foi uma invenção da época do mensalão. O financiamento foi arquitetado para dar um ar menos sujo aos repasses ilícitos das campanhas. A corrupção não está no financiamento legal de campanha. Esse debate tem a intenção de desviar o foco do caixa 2.
DC - Para o senhor, a promiscuidade entre a classe política e o setor privado não diminuiria?
Abramo - De maneira alguma. O governo não vai conseguir impedir que os financiamentos escusos continuem ocorrendo. O interesse em financiar candidatos não vai deixar de existir, assim como não vai diminuir o número de candidatos interessados em receber dinheiro de empresários.
DC - O que há por trás do financiamento público, então?
Abramo - Os caciques que mandam nos partidos é que têm interesse sobre o financiamento público. O dinheiro do cidadão ficará a serviço dos projetos políticos daqueles que já ocupam os cargos eletivos. O financiamento será feito aos partidos, que distribuirão aos candidatos. Quem vai ocupar a cabeça da lista são os que já foram eleitos, que têm maior influência sobre a sigla.
DC - Qual é a alternativa para evitar isso?
Abramo - A saída seria a população e as entidades participarem mais da política. A fiscalização do comportamento dos candidatos tem de ser feita pelas organizações da sociedade. A falta de ação das pessoas é o problema. Em vez de financiamento público, as doações poderiam ser feitas pelo eleitor, o que iria estimular o monitoramento dos políticos.
ROBSON BONIN | Brasília
Multimídia
Claudio Abramo