O Pacto Empresarial pela Integridade e Contra a Corrupção foi lançado no dia 22 de junho de 2006, por iniciativa do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, UniEthos - Formação e Desenvolvimento da Gestão Socialmente Responsável, Patri Relações Governamentais & Políticas Públicas, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Escritório das Nações Unidas Contra Drogas e Crime (UNODC) e Comitê Brasileiro do Pacto Global.
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- O custo da corrupção
Marcos Fernandes Gonçalves da Silva

Corrupção: uma questão sociológica?

A corrupção no Brasil, como em qualquer outro país, está diretamente associada às desigualdades econômicas e sociais. As práticas ilícitas e o mau uso da coisa pública são considerados hoje o fator principal das causas das diferenças sociais. Mas os malefícios não param pro aí. A crise gerada pelas denúncias de corrupção ocorridas nos últimos anos tem atingido as principais instituições do governo e criado uma ameaça para a própria democracia. O economista Marcos Fernandes Gonçalves da Silva, doutor em economia pela Universidade de São Paulo, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas e autor de A Economia Política da Corrupção no Brasil atenta para o lado sociológico do problema: a desigualdade e não a igualdade é o princípio básico da nossa sociedade. A aceitação tácita de que alguns têm mais direitos que os outros “legitima” práticas ilícitas. Portanto, o combate à corrupção e a luta por uma sociedade mais justa depende de uma mudança cultural e de mentalidade. O primeiro passo para essa transformação é entender o quanto gastamos com a corrupção.

É possível medir o custo da corrupção para o País?
A corrupção gera diversos tipos de custos para o país. O custo mais fácil de ser compreendido pela sociedade é o custo de oportunidade. Cada real que é roubado, deixa de ser investido em políticas públicas, seja ele no social, na saúde e na educação. Se o dinheiro deixa de ser investido, o governo deixa de fazer coisas como saneamento básico e de investir de forma mais eficiente em educação e saúde. Se você pegar só o escândalo do Lalau, temos o custo subestimado de 100 milhões de dólares. Somando esse valor com os 50 milhões (também estimado por baixo) da operação sanguessuga, chegamos a 150 milhões de dólares. Com esse dinheiro poderíamos fazer 200 mil casas populares, colocando quatro pessoas dentro de cada uma. Com isso, 800 mil pessoas seriam beneficiadas diretamente. E isso geraria benefícios maiores ainda, pois geraria emprego, renda, investimento, atividade econômica. Este é o custo mais fácil de ser medido.Um outro custo é em termos da instabilidade que a corrupção gera do ponto de vista político e institucional. Ela gera instabilidade política e perda de credibilidade. Os primeiros investidores a fugir são os domésticos, mas todos percebem que o governo não terá como governar. Gera risco de impeachment, desmoralização do sistema político e do sistema legislativo, gera incertezas, crise de governabilidade. Além disso, há um custo difícil de ser mensurado. É o custo em termos de perda de produtividade. A corrupção representa custos, pois ela gera custos para atividade econômica. É um custo difícil de ser estimado, com impactos sobre o crescimento econômico e perda de eficiência.

Fora isso, existe também um custo com a fiscalização. É possível estimar este gasto?
O sistema federal de controle e fiscalização é formado por seis unidades: A Secretaria Federal de Controle, o Sistema Integrado de Adminitração Financeira, a Advocacia Geral da União, o Tribunal de Contas da União e o Ministério Público Federal e a Polícia Federal. Para ter uma idéia, em 1997, poucos anos depois do primeiro escândalo do orçamento, o contribuinte brasileiro gastou cerca 330 milhões com as agencias que fiscalizam a corrupção.

E por que a sociedade acaba se acostumando com as práticas ilícitas?
A nossa sociedade é fundada na desigualdade e não na igualdade e por isso há uma aceitação tácita de que uns têm direito natural de ter mais poder do que os outros. Não digo que é da cultura, pois pra mim a cultura é um subproduto. É da natureza do próprio processo de colonização do país. O fato de sermos ibéricos, pois a península ibérica se entrincheirou diante da modernização. Com exceção da Argentina e do Uruguai, nós não passamos por revoluções burguesas. Esse é o ponto. Eu quero dizer que valores iluministas como liberdade, igualdade e fraternidade não são valores disseminados entre nós. O modelo hierárquico de sociedade que é o modelo pré-iluminista, pré-burguês prevaleceu no país.

O Brasil é mais corrupto do que outros países?
Em termos de índice de percepção de corrupção o Brasil está muito melhor do que outros países. Se você comparar Brasil com outras economias emergentes como a Índia e a China, o Brasil é o melhor. No entanto, somos um país democrata e a democracia precisa de credibilidade. A Rússia tem problemas de corrupção, dentro de um governo autocrático. A China é uma ditadura. A Índia é uma democracia, mas uma democracia num país de castas, de privilégios, então é mais complicado. Mas no Brasil que é uma democracia ocidental não pode haver essa corrupção. Mas todos os indicadores de percepção da corrupção indicam que o Brasil é de nível médio. Como qualquer outro país em desenvolvimento que passa por uma crise de suas instituições. O que a gente precisa é de fato de uma profunda reforma de estado. Não só gerencial, mas política também.

Então podemos afirmar que a corrupção de fato representa uma ameaça à democracia?
Sim, representa porque as pessoas começam a achar que só os regimes totalitários é que resolvem o problema. E sabe qual é o paradoxo? É que a melhor cura para a corrupção é a democracia. Mas a democracia não é só votos. Democracia é o que vem depois. É o acompanhamento, é o follow up, os checks and balance, é você checar e cobrar dos governos. Então o risco é que as pessoas confundam democracia com congresso esfacelado e com poder executivo dilacerado. Não é isso. Democracia é exatamente o oposto. É o mecanismo que garante melhor governança, melhor controle e mais transparência.

Então estamos caminhando para um lado errado?
Não porque ainda temos uma sociedade civil desenvolvida, não existe mais o contexto da guerra fria, o pais é grande suficiente para não se dar o luxo de passar por golpismo. O exército também não tem o mínimo interesse hoje em apoiar um golpe de estado. O problema é a fé das pessoas na justiça, no parlamento e no executivo. Esse é o grande problema.